sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Desassossego



Ontem me senti diferente antes de dormir, não sei explicar como... demorei muito para dormir, tive um sonho muito forte e marcante, passei o dia com uma sensação diferente, nem ruim nem nada negativo... Eu tô sentindo que algo vai acontecer, mas não sei precisar o que... Meu coração tá inquieto, desassossegado. Só sei que isso me motivou a fazer alguns planejamentos para esse mês de agosto, o que é muito importante e válido nesse meu momento atual.

Ultimamente meus dias não tem sido muito fáceis, ainda não me sinto à vontade para comentar aqui, mas nessa semana eu tive alguns avanços positivos. Tô confiante!!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Mantra Ganesha: o filho de Shiva e Parvati


Aniversário do blog!!



Esse mês de agosto comemoro 3 anos de blog!!! Meu cantinho de devaneios, ideias e sonhos... 

Muita coisa aconteceu desde aquele principio de noite de agosto de 2009, quando eu estava na casa de um amigo e decidi que criaria um espaço livre para minha cabeça maluca e cheia de vontade de se expressar. Ali mesmo dei os primeiros passos e fiz as primeiras postagens.

Foram muito intensos esses últimos 3 anos, ainda estou aprendendo a ser gente grande, mas não é fácil. Esse mundo adulto é muito complicado...

Obrigado a todos os meus leitores, o maior presente que ganhei com esse blog foi o de receber mensagens e carinho de pessoas de tantos lugares e que gostam do que escrevo. Muito obrigado de coração!!

E vamos em frente!!

O sonho do menino



Há um menino que sempre me acompanha. Deve ter uns 6 anos, ele passa o dia a brincar com um carrinho enquanto me observa a trabalhar. Está sempre próximo, curioso que só vendo.

Ele não faz bagunça, é muito brincalhão e tímido. Sempre que eu olho para ele, sorri e faz um aceno.

Minha maior dificuldade com ele é quando me pede algo, porque raramente ele me pede alguma coisa, só que quando pede é algo que geralmente não posso dar, não tenho recurso suficiente para lhe presentear. Ele diz que entende, mas a carinha que ele faz é de cortar o coração.

Ele sempre me dá uma maçã ou chocolate. Tem horas que ele some, não faço ideia de onde ele vai. As vezes me preocupo quando demora muito a voltar. Penso em repreende-lo quando volta, mas e a coragem ao ver aquela carinha inocente e cheia de vida. Dou um abraço, um beijo e o ponho para dormir. Sempre conto uma história antes, ele sempre me pede.

Dia desses o pai dele o chamou. Seu pai é um homem trabalhador e de bom coração. Ele o chamou, pegou pela mão e disse: "Venha comigo". O menino foi, assustado. Não pelo pai, que estava calmo e sereno, mas pela situação e pela escuridão que estava.

O menino então viu outro menino se aproximar. Os dois ficaram assustados, eles se olhava de forma acanhada e reticente, olhando sem querer ver. Teria feito alguma peraltice e não se lembrava?

Nesse momento o menino viu sua avó se aproximando. Seu pai lhe disse: "Sua vó é mãe do menino". A avó pegou o outro menino pela mão e se aproximou do filho. Os meninos ao ficarem próximos encolhiam-se de vergonha, sentiam um certo medo e curiosidade um pelo outro, sem compreender o que faziam ali.

O pai do menino pediu ao filho que pegasse na mão do outro: "Vamos! Vocês irão receber a benção do avô de vocês".

Eles pegaram um na mão do outro e acompanharam mãe e filho em direção a um senhor idoso e de longos cabelos e barba branca.

O avô ajoelhou-se e acariciou os dois garotos. Eles sorriram e abraçaram o senhor. "Sua benção vovô!" "Deus os abençoe, meus filhos".

Os dois meninos então se abraçaram e sorriram emocionados. O avô começou a gargalhar, e os meninos acompanharam dando risadas gostosas. Mãe e filho sorriam discretamente abraçados, acompanhando a felicidade e brincadeira dos três. O velho parecia um outro menino, deram-se as mãos e cantavam e dançavam na maior felicidade. Nunca vi o menino tão feliz. Me afastei e voltei para casa feliz pela felicidade de alguém tão especial para mim. De certa forma, não sei como, consegui dar o presente que o menino tanto queria.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Chinesas




Sexta fria e chuvosa

É incrível, mas estou conseguindo escrever menos esse ano do que o ano passado...rs

Desaprendi a escrever, só pode... recentemente tive uma reunião com meu orientador e ele me mostrou o quão fraco estava tudo o que havia produzido até então. Isso é algo novo para mim, pois sempre tive uma facilidade grande para escrever.

Entro no meu facebook ou twitter e um grilo começa a cantar na minha cabeça. Falta ânimo, paciência e coragem para escrever o que quer que seja. Já nem sei mais o que é sentar e escrever um conto ou uma crônica, e quase choro só de pensar em escrever um artigo. Já não converso mais com amigos como antes, falta-me assunto, prefiro ouvir.

Cada fase estranha a gente passa... A verdade é que me recolhi um pouco do mundo e tenho tentado observar melhor quem eu sou, o que tenho feito de minha vida e o que pretendo seguir ou descartar. Já não sou mais o mesmo mas ainda estou indefinido, impreciso e disforme.

Quando estou triste eu abro um sorriso, dou um abraço, um beijo, desejo um bom dia... Um oráculo me disse que não devemos esperar coisas acontecerem ou mudarem para sermos felizes ou estar bem, a gente deve sorrir e aceitar a felicidade e as bençãos antes da vinda delas, assim seremos bons anfitriões. Agradecer, antes de ganhar. Perdoar, antes que nos peçam desculpas. Enfim, viver o que a oração de São Francisco nos diz.

Mas de forma alguma estou num mal momento, muito pelo contrário, estou vivendo uma fase muito positiva. Talvez a minha dificuldade seja justamente em lidar com fases positivas.

Meu problema é que cresci deixando de lado problemas estruturais que agora me preocupam. Tenho muitas limitações e medos. Sou capaz de fazer coisas muito difíceis, porém me paralizo em coisas que para outras pessoas são tão simples.

Mas nem tudo está perdido, consegui ao menos escrever esse texto, já é um avanço. O bom do meu blog é que minha família, amigos, colegas de trabalho e pessoas próximas nem conhecem esse espaço, então encontro aqui meu refúgio. Tem horas que tudo o que quero é estar longe de tudo o que me faz ser quem eu sou hoje, para ver se eu consigo me decodificar e poder voltar renovado e motivado.

Engraçado, estou aqui pensando em como terminar esse texto e minha cabeça começou a tocar uma música do Ivan Lins... Sei lá o que meu inconsciente quer me dizer, mas joguei ela no google e copiei a letra pra encerrar esse post. Até mais!!

Vitoriosa
Ivan Lins

Quero sua risada mais gostosa
Esse seu jeito de achar
Que a vida pode ser maravilhosa...

Quero sua alegria escandalosa
Vitoriosa por não ter
Vergonha de aprender como se goza...

Quero toda sua pouca castidade
Quero toda sua louca liberdade
Quero toda essa vontade
De passar dos seus limites
E ir além, e ir além...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

UFSCar oferece Especialização em "Discurso e Leitura de Imagem"



Até dia 05 de abril estarão abertas as inscrições no curso de Especialização em "Discurso e Leitura de Imagem" oferecido pela UFSCar. A atividade é destinada a pessoas que atuam ou buscam aprofundar conhecimentos com a análise de imagens, em instituições e locais presenciais ou virtuais: escolas, agências de comunicação, universidades, institutos de pesquisas, arquivos, bibliotecas, centros culturais, instituições de patrimônio histórico, dentre outros.

O objetivo do curso é oferecer estudos advindos do campo das linguagens aplicados em análises dos discursos imagéticos, considerando-se, para tanto, três grandes modalidades de produção: as imagens fixas, as imagens em movimento e as imagens no virtual. Para a realização deste curso foram convidados docentes dos departamentos de Ciência da Informação, Imagem e Som, Letras e Sociologia da UFSCar, além de professores dos cursos na modalidade da Educação a Distância. Se, por um lado, as perspectivas teóricas e conceituais dos docentes dessas áreas são diferenciadas, por outro, o que os une é que há anos eles pesquisam sobre leitura e análise dos discursos imagéticos, aplicando seus conhecimentos em diversos textos: quadros, fotos, história em quadrinhos, filmes, imagens na internet, transmídia, na educação a distância, nas imagens em 3D.

Os interessados podem fazer inscrição agendando entrevista na secretaria do Laboratório de Análise do Discurso da Imagem (LANADISI), situado no Departamento de Ciência da Informação da UFSCar, pelo telefone (16) 3351-9469. O funcionamento da secretaria será de segunda a sexta-feira das 13 às 18 horas, exceto nos feriados. Na entrevista será necessário apresentar currículo impresso. São oferecidas 40 vagas e, deste total, 5% são destinadas a funcionários da UFSCar.

Mais informações podem ser obtidas no site do curso, pelo telefone (16) 3351-9469 ou pelo e-mail discursoeimagem.ufscar@gmail.com.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A Terceira Margem do Rio – Guimarães Rosa

canoeiro

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.
Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.
No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.
Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.
A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.
Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.
Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.
Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.
Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.
Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

Fonte: http://www.releituras.com/guimarosa_margem.asp