quinta-feira, 16 de março de 2017

A velha estrada da Mumbuca


Trabalho em Guaxupé há quase 7 anos e desde que comecei viajo de Passos pra cá passando por uma estrada de terra de cerca de 17km, conhecida como estrada da Mumbuca e que leva à cidade de Bom Jesus da Penha, cidade natal de meus pais. Inicialmente passava de ônibus, depois de carro, quando comprei o meu.

Desde que me entendo por gente os políticos falam que vão asfaltá-la mas nunca que esse asfalto acontecia de fato e muitas pessoas moram em sítios por onde essa estrada passa e dependem dela para ir à Passos ou outras cidades vizinhas. Imaginem o transtorno quando alguém passava mal e precisava ir até um hospital em época de chuva! O barro que formava era assustador. Eu mesmo já passei muita dificuldade de passar por lá em época de chuva, muitas vezes nem passava, já seguia para outro caminho.

Mas há uns 3 anos o que ninguém mais acreditava começou a acontecer, começaram a asfaltar a estrada. No começo com muitos trabalhadores, começou bem ágil, mas depois interromperam por falta de verba e só em meados de 2016 retomaram, com menos trabalhadores, e agora a obra caminha para seu fim.

É muito legal ter vivido todo esse processo, observado as mudanças e ver a alegria dos moradores da região que agora podem levar uma vida mais tranquila.
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura realmente!

Tenho uma história engraçada para contar dessa estrada. Em 2009, quando eu ainda morava e estudava em São Carlos, eu tinha um caderno de sonhos e anotava todos meus sonhos nele (devo ter falado sobre isso aqui no blog na época). Pois bem, anos depois reencontrei esse caderno e ao reler ele vi um sonho que eu tive onde eu passava de carro pela Mumbuca e parava perto de um bar em frente a igrejinha do lugar. Na época esse sonho não significou muito para mim, primeiro porque há muitos anos não passava por essa estrada (eu viajava muito com meu pai na minha infância passando por ela pra ir visitar nossos parentes em Bom Jesus, a primeira viagem que fiz na vida foi essa) e, em segundo, porque não tinha habilitação. Assim, o curioso é que anos depois aquilo que vivenciei no sonho se tornou comum em minha vida. Tive um reflexo do meu futuro em meu sonho. Curioso isso...


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A dura vida de ser um mestre Pokémon Go morando no interior



Jogo Pokémon Go desde que ele chegou ao Brasil, no comecinho de agosto deste ano, e desde então sigo firme no jogo. No primeiro mês foi uma febre louca, até quem não conhecia Pokémon baixou o app para caçar os bichinhos. Depois a febre foi baixando, as regiões de Pokestops (áreas nas cidades onde o jogador pode ganhar pokebolas, ovos entre outros recursos) e Ginásios (áreas para batalhas) foram esvaziando e só os fortes ficaram. De outubro para cá, eles começaram a fazer eventos especiais para recuperar jogadores e sempre com algum bônus.

Eu faço parte desse grupo que não parou e sigo jogando diariamente, andando pelas ruas para chocar ovos, capturando pokémon selvagens, rodando pokestops, evoluindo bichinhos e batalhando nos ginásios. Também acompanho páginas especializadas e canais no youtube sobre o jogo para me manter informado e aprender coisas novas.

E tem um bom tempo que sinto vontade de escrever sobre minha experiência de ser um mestre Pokémon, na verdade a sofrência que é ser um mestre Pokémon morando em uma cidade do interior. O lugar onde você mora interfere profundamente a experiência do jogo, se você mora em grandes capitais ou cidades populosas é uma maravilha, vários pokestops e ginásios e muitos spaws de pokémon, mas se mora no interior, em cidades pequenas, você tem que ser guerreiro, não é fácil.



Elenco aqui as 5 maiores dificuldades que eu vivencio na minha jornada Pokémon:

1- Problema de Falta

O maior problema em morar em cidade pequena é o de falta! Falta tudo: falta pokestop, falta ginásio, falta pokémon, falta jogadores...

É a maior reclamação de jogadores do mundo todo. Como jogar um jogo que não te oferece todos os recurso necessários? Eu moro em duas cidades de Minas Gerais: Guaxupé e Passos, passo a semana em Guaxupé, onde trabalho, e fim de semana, feriados e férias em Passos. Guaxupé pelo menos tem 6 pokéstops e 2 ginásios, já dá para ganhar umas coisinhas e batalhar de vez em quando, mas Passos tem apenas 1 pokéstop!! Lá só dá para ser caçador de pokémon, nada mais!

Desde o mês passado tem bônus diário, o primeiro pokémon e a primeira pokéstop que você passa no dia você ganha mais bônus e com 7 dias seguidos ganha mais ainda. Em Guaxupé eu consigo ganhar mais tranquilo, quando vou trabalhar passo na rua de baixo do meu emprego e faço minha coleta diária, mas em Passos eu preciso sair do meu bairro e ir até o centro pra conseguir a meta diária. As únicas coisas positivas é que eu faço minha caminhada diária e dá para chocar uns ovos, mas é frustrante quando você vai em uma cidade grande e vê a diferença que é.

Esse semestre estive em São Paulo e Curitiba e joguei por lá, com pokéstops uma atrás da outra. Uma caminha de uma hora te garante o reabastecimento de pokébolas, não precisa nem gastar dinheiro com isso, sem contar a enorme quantidade de pokémon que encontra no caminho.

Tanto em Guaxupé quanto Passos existem pontos no mapa que aparecem mais pokémon (pontos de spaw, pontos no mapa onde periodicamente aparece um bichinho), mas existem muitos locais que aparecem pouquíssimos. Única coisa que não posso reclamar do bairro que moro em Passos é que lá aparece muito pokémon, mais até que onde moro em Guaxupé.

E não é só em cidade pequena que falta muita coisa, bairros afastados e mais pobres de grandes cidades também tem poucos pokestops e pokémon. Todo mundo reclama, a Niantic (desenvolvedora do jogo) faz promessas de melhorar, mas até agora nada de pokéstops novas, a gente do interior continua vendo uma mapa desértico no nosso jogo.

E nem posso reclamar muito porque por mais que Guaxupé e Passos tenham poucos pokéstops ainda são melhores que muitas cidades que não possuem nada e no máximo spawnan Zubats e Pidgeys (os mais comuns de aparecer).



2 - GPS Bugado e internet ruim

Pokémon Go depende de duas coisas: GPS e Internet, sem isso você não joga. Daí já imaginem o drama de jogar em cidade pequena, onde o sinal de GPS é sempre ruim e internet pior ainda.

Várias vezes estou jogando e o GPS fica me mostrando em outro lugar, eu preciso ficar andando feito besta para ele reconhecer onde estou. Pra dar mais raiva ele buga quase sempre quando estou me aproximando da Pokéstop. 

Outra coisa é o meu personagem no jogo (que se movimenta ou para acompanhando meu movimento) parar de tudo e mesmo eu andando ele não sai do lugar e fica lá parecendo estátua. Aí só reiniciando o jogo, algo que dá até vontade de chorar porque nunca sei se a internet está boa ou não. Quando está, o jogo reinicia rápido mas quando não está posso até desistir que não entra de jeito nenhum. E olha que tenho a operadora de melhor sinal da região e um plano bom e um segundo chip de outra operadora. O que costumo fazer é conectar em casa pelo wi-fi e depois sair para rua com 3G. Normalmente dá certo, mas várias vezes dá os problemas que relatei acima, o que faz a gente passar muita raiva.

Quando joguei em Curitiba foi lindo, internet funcionava (nem sempre, 3G no país todo é uma tristeza, mas ainda foi melhor que aqui em MG), GPS bugou pouquíssimas vezes, meu personagem andava direitinho pelo mapa. Um sonho!



3 - Forever Alone

Se nas cidades tops para jogar muita gente também desistiu, imaginem em cidades como as que vivo? Não tenho nenhum amigo que continue jogando, jogo sozinho. O problema é que esse é um jogo para se jogar de forma coletiva, como batalhar e conquistar ginásios sozinho? Até dá, porém você põe um pokémon no ginásio, coletá sua moeda e logo alguém vem e te derruba.

São tão poucos jogadores agora que eu até reconheço pelos nomes deles nos ginásios, sempre os mesmos que dominam, porém não os conheço pessoalmente, não há como comunicar com eles. Quando o jogo saiu criaram uma página no Face mas em 15 dias ninguém mais participava.

Minha jornada Pokémon é solitária, infelizmente.



4 - Ecossistema

Existe uma escala de raridade para aparecer um pokémon em uma região, alguns são muito comuns e outros muito raros, aparecendo poucas vezes. Em cidades grandes, pelos canais que acompanho, em quatro meses foram suficientes para a galera completar a pokedex (lista de pokémon no jogo, parece álbum de figurinha, cada vez que você captura um novo é marcado na pokedex e mostra informações dele, se você não tem aparece apenas o número e o espaço vazio). Eu até agora consegui 106 dos 151 disponíveis (existem 5 que ainda não foram lançados e 4 regionais que só dá para serem capturados em outros países, esses não conta para gente ainda no Brasil) e ontem já lançaram novos pokémon, os Baby, ou seja, tenho mais pokémon para encontrar. 

Em outubro, houve evento de Halloween e 8 Pokémon passaram a aparecer em todos os lugares, praticamente só eles apareciam, todos os outros passaram a aparecer pouco. O que me revoltou é que mesmo nesse evento houve diferença entre quem mora em grandes cidades e cidades pequenas, nas grandes todos os 8 apareciam, nas menores não. Na minha região dois não apareceram de jeito nenhum, nem vi nas proximidades e olha que andei muito para aproveitar o evento. Mês passado lançaram um pokémon que se transforma em outros, o Ditto, ele aparece disfarçado, só depois de capturar é que você descobre que pegou ele. No primeiro dia que ele foi lançado o povo das cidades grandes acharam fácil, nos dias seguintes acharam muitos outros. Eu até hoje não peguei nenhum, tô tentando achar ainda.

Quando você está em uma área boa para jogar, com muitos pokestops e spaws de pokémon a probabilidade de achar pokémon raros é muito maior que morando nos locais escassos de recursos. Existem pokémon que nem são tão raros e eu nunca vi por perto, aparece muito mais pokémon comuns por aqui e outros demoram tanto para aparecer de novo que você leva uma eternidade para conseguir candies para os evoluir. Aliás, minha sorte são os ovos e a possibilidade de ganhar candies caminhando com o pokémon Buddy que eu consegui evoluir muitos dos meus pokémon que aparecem pouco na minha região, só assim para garantir as evoluções deles e marcar na pokédex.

Quando eu vejo a galera nos canais mostrando a quantidade de candies que tem de vários pokémon e muitos são centenas dá uma tristeza, juntar 100 candies de qualquer pokémon por aqui é uma sofrência sem fim. Só pensar, eles tem várias pokéstops para coletar pokébolas, nunca falta pokébolas para eles, podem capturar todos que aparecem pra eles. Eu se consigo juntar umas 15 pokébolas num dia já comemoro e tenho que economizar por isso deixo de capturar muitos. Daí surge minha última reclamação que é o...



5 - Custo

O jogo é gratuito mas se você quiser pode comprar moedas para comprar certos recursos como pokébolas, incenso para atrair pokémon, espaço na mochila, entre outros. Quem mora nas cidades populosas não precisa se preocupar em comprar bolas, com uma hora você consegue coletar umas 60 pokébolas tranquilamente, dá pra capturar tranquilo os monstrinhos. Mas se você mora no interior é impossível jogar sem comprar pokébolas, ou você compra ou fica sem capturar, porque não dá pra ficar andando pelas pokéstops daqui de Guaxupé, que são longe umas das outras. O que eu faço é tentar ficar uma hora parado em uma e ir coletando de 5 em 5 minutos, mas no fim eu coleto poucas pokébolas e acabo gastando a maioria capturando os pokémon que aparecem pertos de mim. Em Passos, vou pra praça e fico lá até a bateria acabar, mas do mesmo jeito acabo gastando tudo que ganho com os que aparecem lá.

Quem mora nas cidades boas não gasta com pokébola e podem comprar moedas e investir em coisas melhores como chocadeiras, espaço, lure e incenso, o que melhora ainda mais o desempenho deles no jogo. Quem mora em cidade sem pokéstop é pior ainda, só comprando mesmo ou viajando, o que não dá pra fazer sempre, e mesmo comprando terão poucas opções de captura e mais os comuns mesmo, dificultando assim subir de nível no jogo.



Esse foi meu desabafo sobre a sofrência de ser um mestre Pokémon do interior. Está certo que na origem do Pokémon está a ideia do jovem que deixa sua cidade para ser um mestre pokémon e percorre várias cidades, mas isso é impossível para gente que é assalariado...rs

Sigo jogando, já tô no nível 24 (de 40) mesmo, vamos ver até onde vou e quanto tempo vou levar pra completar minha pokédex, se é que vou completar, agora com novos pokémon entrando no jogo a tendência é ficar ainda mais difícil. Mas eu realmente sou Mestre na área, trabalhei com games no meu mestrado e tenho planos para doutorado na área, quem sabe ainda viro Doutor Pokémon?? rsrs

PS: Pokémon não tem "s" no plural porque é a abreviação de Pocket Monsters, assim o plural de Pokémon é Pokémon mesmo.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Dilema pessoal



Estou em um momento pessoal de tomar uma decisão muito importante que pode mudar muito minha vida e os rumos do meu destino.

Como é difícil tomar uma decisão desse tipo...

Pesar os prós, contras, possibilidades, limitações... são tantas variáveis na equação que fica difícil chegar à resposta final.

Tenho conversado com muita gente pra encontrar minha resposta.

Sou uma pessoa aberta ao novo, não tenho medo de largar tudo e entrar de cabeça em outra realidade, mas o que mais me pega agora é responder a seguinte pergunta:

- O que eu quero da minha vida? Quais meus planos, objetivos pessoais, sonhos? Das minhas opções, qual pode ajudar mais?

É difícil responder...

Só sei que seja qual for minha escolha, será a melhor.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Testando...

Acabei de instalar o app do blogger pra postar do celular e estou testando...

💀👽🐟🐠

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Que horas ela volta?




Domingo assisti "Que horas ela volta?" e é realmente um belíssimo filme!! Achei a temática e a abordagem original, uma verdadeira lufada de ar fresco na cinematografia nacional. Tinha tudo para ser piegas ou apenas uma crítica social como tantas outras em nosso cinema, mas não, oferece um mergulho sensível nos sentimentos e expõe algo que vai além da relação empregada/patroa, nos faz refletir sobre as relações de poder que estabelecemos no cotidiano e que aceitamos sem olhar criticamente para o que ocorre de fato.

E me emocionei mais ainda por que tocou fundo em lembranças minhas, da minha infância, época em que minha mãe era empregada doméstica e eu era o filho da empregada e não entendia por que em dia de festa infantil eu não podia ficar para a festa, passava o dia brincando com as crianças enquanto os adultos preparavam a festa, chegavam os doces, os salgados, bexigas eram enchidas... e dava o fim da tarde eu tinha que ir embora e não poderia voltar (minha mãe mentia dizendo que me levaria para casa para me arrumar e depois voltar, mas nunca voltava).

Eu tentava me enturmar com o filho da patroa, nossa diferença de idade era pequena e eu ficava deslumbrado com a quantidade enorme de brinquedos que ele tinha e com um porão que havia na casa onde ele e seus amigos montaram um clubinho. Eu pedia para brincar com eles mas eles não deixavam, me passavam várias tarefas para fazer dizendo que se eu fizesse eles deixavam eu brincar também, fazia tudo e nunca cumpriam a promessa, o máximo que consegui foi botar os pés dentro do porão e sair logo em seguida. Passava mais tempo brincando sozinho ou preferia ficar em casa mesmo, também sozinho, do que ficar passando por aquilo. Era inútil reclamar para minha mãe, eu tinha que entender que não era uma criança como eles.

Nem vou falar das coisas que minha mãe passava, algumas só fiquei sabendo muitos anos depois por amigos da família. Um exemplo foi certa vez que minha mãe aproveitou o horário de almoço para correr no supermercado e fazer compras. Ela deixou suas sacolas no quartinho dela e quando deu a hora de ir embora a patroa a chamou na frente de outras funcionárias dela e disse que andava sendo roubada por elas e achava que minha mãe poderia estar roubando coisas também. Ela fez minha mãe esvaziar todas as sacolas e mostrar todos os produtos. Como minha mãe não roubou nada, ela a dispensou e depois disse que fazia isso para suas funcionárias não serem insolentes e aprenderem a respeitá-la.

Havia uma vizinha que tinha um filho da minha idade e muitas vezes para eu não ficar sozinho minha mãe deixava que eu fosse brincar com ele. Nós tínhamos cerca de 5 anos, ele era um menino muito mimado e que tinha muitos brinquedos. Eu ficava fascinado. Era um menino muito atentado, uma vez fez eu ir com ele na loja da família que ficava perto e pegou dois jogos e deu um para mim. Mais tarde a mãe ao ver o que tinha acontecido deu o maior esporro nele e eu fiquei apavorado e me sentindo culpado. Ela viu que eu não tinha culpa, me acalmou e me deu o jogo de presente, mas fez o filho devolver o dele. Certa vez fomos a um rancho, minha mãe foi para faxinar e eu fiquei com o menino e a mãe. Ela nos ensinou a pescar e começamos a pescaria, eu fui pegando um atrás do outro e o filho dela nada, ele era agressivo com a vara e espantava os peixes. Por fim, eu pesquei nove peixes e ele um, que tinha voado e caído numa piscina velha e só encontramos horas depois. Ao fim do dia, contei para minha mãe todo feliz do meu sucesso com os peixes e disse que era para nosso jantar. Minha mãe disse que eu não ia levar os peixes, que não eram nossos. Eu comecei a chorar e a dizer que eu que tinha pescado, a mãe do garoto disse que eu poderia levar, mas minha mãe negou e foi firme, me disse em segredo que só diziam aquilo por educação. Fui embora chorando e sem entender por que tinha que ser assim.

E essa foi uma das coisas mais duras a se entender, por que eu não poderia aceitar algo que me ofereciam, que só faziam por educação e quando eu estava com a minha família, entre os meus, eu deveria sempre aceitar, mesmo que não quisesse, para não fazer desfeita. As regras de boas condutas eram (e confesso que ainda são) muito estranhas para minha cabeça...

É engraçado ver comentários negativos sobre o filme da Muylaert, que é um exagero, que não é assim, que quer demonizar as patroas, que é uma crítica social chata... Curiosamente, quem diz isso sempre foi filho de patroa e normalmente filhos de patroa não conseguem ver muito além dos seus próprios umbigos. O filme não é somente sobre um problema social brasileiro, ele vai muito além. Se por um lado me despertou essas lembranças e essa conexão por eu já ter vivido algo semelhante, por outro me fez questionar como eu me relaciono com os outros, quais os valores que eu cultivo no meu dia-a-dia. É chocante ver um homem sentado pedindo para outro fazer tudo por ele, até abrir uma lata de refrigerante, mas quantas vezes eu mesmo não arredei minha bunda do sofá e transferi para outros funções que eram minha obrigação de realizar? Quantas louças deixo sujas e que outros lavam por mim e nem mesmo um obrigado eu dou? 

Comecei recentemente a estudar na Unicamp, em Campinas, e achei assustador o abismo que existe entre os funcionários da limpeza e os alunos. São duas realidades que não se cruzam, espíritos desencarnados, uma verdadeira Silent Hill. Quando eu cumprimento um deles os olhos se arregalam em espanto até me responder, dá para ver pela expressão que está pensando: "Como assim ele está falando comigo??". E é assim na Unicamp, era assim na UFSCar, é assim em Passos, em Guaxupé, em todos os lugares onde já estive. Por isso acho louvável uma produção como a de "Que horas ela volta?", afinal o buraco é mais embaixo e o problema não é apenas no ambiente doméstico, nossa sociedade, nossa democracia, é formada por pessoas que desde que se entendem por gente devem entender "qual o seu lugar" e a maioria deve abaixar a cabeça enquanto a minoria desfila em seus trajes de soberba.


sábado, 16 de maio de 2015

O estojo



Certa vez, quando eu era aluno de Perseverança (para quem não é católico e desconhece, perseverança é a continuação da catequese após a primeira comunhão e vai até o jovem ter idade de cursar a crisma), ganhei um estojão de lápis de cor, canetinhas, tinta e outras coisas de desenho, aqueles estojos grandes do Paraguai que foram muito populares na década de 90. Ter um daqueles era um sonho, porém não tinha condições financeiras de ter um. Quando ganhei senti uma felicidade imensa e aproveitei bastante. Era um sonho, apesar da qualidade dos lápis serem sofríveis. O pastel parecia um borrão e eu quase quebrava meu dedo mindinho tentando esfumar o desenho. Mas e o orgulho de poder ter um e desfilar com ele por aí? Ostentação total!! A professora de catequese sempre levava algum brinde e sorteava entre a gente, e eu ganhei esse estojo num desses sorteios. Era divertido, ela anotava um número e quem acertasse ganhava o brinde. Senti-me a criança mais sortuda do mundo aquele dia!!
Anos se passaram e um dia reencontrei minha professora em um elevador. Eu não a reconheci, estava muito diferente. Ela disse: "Você não se lembra de mim, né? Eu não esqueci você" Nessa hora lembrei quem era ela e ela me fez uma revelação: "Lembra de quando você ganhou um estojo em um sorteio? Preciso te contar algo, eu roubei. Comprei aquele estojo para te dar de presente porque senti necessidade de te estimular de alguma forma. Vi em você uma vocação que precisava crescer e que precisava de uma oportunidade e espaço para isso. O estojo era o que eu poderia lhe oferecer. Mas eu não poderia te dar do nada um presente assim, as outras crianças ficariam tristes e eu não poderia dar para todos. Então fiz o sorteio sem anotar o número, morrendo de medo de alguém perceber esse detalhe. Não importava o número que você escolhesse, você ganharia. Havia o risco de alguém perceber e eu ter que fazer da forma correta. Mas passou, você ganhou e todos compartilharam de sua alegria. Na verdade se você recordar, todo mundo ganhou algo ao longo do ano" Ela piscou para mim, nos despedimos e até hoje não a vi mais... 
Não esqueço disso e ainda tenho o estojo guardado. Ele foi ressignificado em minha vida daquele dia em diante...
Esse fato me marcou profundamente. Despertou, e desperta ainda, muita reflexão...
O que tenho a dizer e passarei a minha vida toda repetindo, é:
"Obrigado, professora!"

terça-feira, 5 de maio de 2015

Desabafo...


Esse ano tem sido amargo, infelizmente muita coisa que planejei não está dando certo.

Ontem, pela quarta vez, tive uma porta fechada na minha cara. Para os meus "pares", meu trabalho acadêmico não tem muito valor, pelo visto. Pra ser sincero não esperava ser diferente, mas que amarga a boca, amarga.

A escolha é minha. Não aceito fazer parte de panelinhas, não tenho a menor vocação para fazer a dança da academia e nem paciência para puxar saco de ninguém. Não vou seguir "o caminho natural", sigo o meu caminho que foi o que pude seguir. Não vou deixar minha vida para fazer sacrifícios e me humilhar pra quem não está nem aí para comigo. Não!

Pode ser piegas, e é, mas escolhi o caminho do coração, agarro-me às oportunidades que aparecem e que despertam em mim bons sentimentos. Procuro ir atrás do que me faz feliz e me leva a aprender coisas que considero interessantes e que me tornam uma pessoa e profissional melhor.

É um desabafo. Apesar de tudo, não perco a esperança, continuo a caminhar de cabeça erguida e sorriso no rosto. Às vezes choro um pouquinho quando estou no meu mundo particular, mas enxugo as lágrimas e ponho a cara no sol.

Tudo é aprendizado. Os chacoalhões fazem a gente acordar e dar um novo gás.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Causos da vida

A senhorinha foi ao postinho de saúde fazer uma consulta e o seu exame ginecológico anual.

A médica fez os procedimentos e colheu o material. Entregou para a senhorinha o frasco com o líquido colhido e passou as receitas e os procedimentos.

A senhorinha ficou intrigada com o potinho e perguntou:

- ...e dotôra, de que hora a que hora que eu devo tomar isso daqui??

- Minha nossinhora, a senhora não vai tomar isso não!!

(Causo verídico)